Construção
Tinha saído daquele apartamento pela última vez em 2004, direto para a rodoviária. Quando voltei de Buenos Aires uns dias depois, fui levada para outro endereço, umas quadras acima no mesmo morro. Minha vida é cheia de parênteses estranhos, então no dia em que meus pais haviam decidido que iríamos nos mudar, decidi viajar sozinha para a Argentina. Dezoito anos depois, uns dias antes de os argentinos ganharem a Copa do Mundo, no ano em que fui para lá duas vezes, voltei a cruzar o umbral daquela porta. No creo en brujas.
Quinta-feira passada, quando pisei de novo no chão em que engatinhei quando bebê e no quarto onde dormi até me tornar mulher, tantos anos depois, me senti com uns dois metros de altura. É normal que nos sintamos assim, dizem, quando retornamos a lugares que um dia ocupamos depois de muitas experiências. Na minha parede hoje, há uma reprodução de um quadro que comprei no Museo de Bellas Artes naquela viagem, quando tinha só 21 anos e sequer sabia que Benito Quinquela Martín existira. Há também outras reproduções, de outras viagens, uns continentes mais distantes, outro hemisfério, outros idiomas. A Renata que mora nesse apartamento de onde escrevo, que é menor do que aquele outro, tem um espaço interior mais amplo. É estranho pensar isso, mas assim foi.
Talvez o mesmo se aplique ao Brasil, depois de todos esses anos, principalmente a partir de janeiro. Alguns apartamentos estão se demonstrando, digamos assim, pequenos. Um deles é o ensino superior público em sua forma tradicional.
Na semana passada tive também a experiência de sentar no hall do campus onde trabalho, com um microfone na mão. Naquela ocasião, me senti pequena. Dei uma aula pública na segunda ocupação que vejo alunos e alunas atravessarem desde que comecei a lecionar em uma universidade federal. Falei muito mais para fazer sentido do que estamos passando do que propriamente para elucidar ou ensinar qualquer coisa. Peguei um apanhado de sensações, alguns conceitos que trabalho em aula - o de História, entre eles - e falei sobre como esse edifício se tornou complicado de habitar.
Disse que um dos trunfos que a disciplina histórica ainda detém é o de nos dar a oportunidade de desnaturalizar certas coisas, como por exemplo, dos estranhamentos com o fato de a seleção argentina “não ter” jogadores negros. Tratei, portanto, naquela aula, de discutir como o conceito de democracia é frágil no Brasil pois, de modo geral, quando pensamos nele nos moldes de hoje, trata-se de um constructo oriundo não só do contexto de redemocratização na América Latina, mas também do desgaste da União Soviética enquanto um horizonte possível no final dos anos 1980. Quis também discutir a própria ideia de universidade enquanto associada a esse contexto, dessa ideia de um “chegamos lá” teleológico que - em que pese admitir - foi ainda mais reforçado pela primeira eleição de Lula em 2002.
Como já escrevi antes - e aqui peço desculpas se me torno repetitiva - o sistema universitário no Brasil foi expandido e o acesso ao ensino superior foi ampliado a muitas pessoas sem que se questionasse se essa instituição, nos moldes em que existia, atendendo uma parcela minoritária da população, as acolheriam e contemplariam. Isso não é de agora: é um rumor que escuto desde a implementação das cotas, do SiSU, do REUNI, e que vejo nos olhos de alunos desde 2016. Desde então, tive de me repensar enquanto professora, me desmontar enquanto brasileira, me situar. Logo eu, que sempre me senti tão deslocada: tive de entender meu próprio deslocamento como sendo algo característico de alguém que foi criada em um Brasil refratário, isolado, com alarmes de carro, portaria 24 horas e grades nos edifícios. Habitando sem habitar.
Para que serve uma universidade se as pessoas não têm o que comer? Não pergunto isso retoricamente, pensando em alunos dentro da universidade estudando coisas aparentemente inúteis enquanto outros passam fome nas ruas. Essa é a realidade do Brasil desde que as primeiras universidades abriram suas portas, na década de 1930. Falo de algo de outra ordem: muitos de meus alunos estão neste momento passando fome porque a estrutura orçamentária da universidade, seus procedimentos burocráticos e suas normativas não contemplam a possibilidade de que alguém não consiga se sustentar, tenha muitas vezes de ajudar sua família e não contrário, não tenha para onde ir durante os recessos e férias ou então não tenha família outra que não os próprios colegas.
A universidade hoje não abarca aquilo que ela visava oferecer por conta de quem eram e que lugares ocupavam na sociedade as pessoas que a instituíram em sua forma moderna, nos séculos XIX e XX. Assim como a democracia, assim como a História. São apartamentos nos quais muitos de nós crescemos e, depois de uma série de experiências, parecem pequenos quando os revisitamos - ou ainda, sempre foram inabitáveis para muita gente. A alternativa que se apresenta hoje, as cartas do baralho que estão postas, é que eu volte para meu edifício confortável, com portaria 24 horas, e dê aulas de Ensino a Distância para quem vai - entre um trabalho muitas vezes informal e outro - dar conta de sobreviver.
Nos últimos dias, não tenho conseguido trabalhar no que pesquiso. Não vejo sentido em produzir academicamente quando meu espaço de partilha e produção desse conhecimento está reduzido a servir de teto para quem tem pouco dinheiro para pagar um aluguel e as contas de luz e água, para quem vai passar o final de ano abrigado em uma construção já precária apesar de nova. Seria um desrespeito eu continuar alimentando meu currículo enquanto a razão de ser do meu emprego está ameaçada - em diversos sentidos do termo.
Deixo aqui o código pix para quem quiser ajudar o movimento estudantil do campus em que leciono, assim como o link para sua conta de instagram: estudantesassistencia@gmail.com.
Que todos esses edifícios brasileiros se tornem um pouco mais acolhedores e ventilados, ainda que pequenos, nos dias que estão por vir.

