Fraturas
Semana passada, depois dos santos e finados, completei sete anos como professora de uma universidade federal. Uma universidade modesta, dessas criadas durante o governo Lula, cujos prédios terminados e outros ainda nem isso começaram a decair antes mesmo que o Partido dos Trabalhadores fosse declarado precipitadamente defunto. Quando cheguei, nos últimos respiros do segundo mandato de Dilma, já tinha ocorrido uma greve e os cortes ainda implementados naquele governo recém se faziam sentir. Desde então, o orçamento da universidade só tem minguado, junto com o número de discentes e de funcionários que nos auxiliam no dia a dia.
Já escrevi em outros lugares sobre nossas circunstâncias atuais, a respeito do meu cansaço e desânimo, de alguns respiros de coisas que dão certo. Esse texto não tratará de cortes, portanto, e sim de fraturas.
O Brasil, como outros lugares do mundo, vive atualmente uma reação conservadora às parcas aberturas de espaço e questionamento a instituições, tais como estabelecidas no ocidente, por parte de pessoas antes consideradas subalternas. Instituições essas, a grosso modo, construídas como hoje as conhecemos a partir do século XIX. Essas pessoas, por necessitarem desse qualitativo - subalternas - não eram, e em muitos casos ainda não são, consideradas pessoas de todo. Necessitam deste apêndice para qualificá-las. Porque não existe isso de pessoa, não da forma como querem nos dizer que existe. Os pobres, as mulheres, os negros, os indígenas, os LGBTQIA+, os muçulmanos, os judeus, as pessoas do candomblé e da umbanda: nenhuma dessas pessoas é de todo considerada pessoa aos olhos dos ocupantes - vocês sabem quem - destes lugares dos quais dependemos para tantas coisas: os governos, as escolas, as universidades, os hospitais.
Desde meados do século XX, essas pessoas outras passaram a demandar, ocupar, querer estar nestes lugares. Um homem chamado Barack Hussein Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos depois de um metalúrgico com um apelido estranho ser eleito (e aceito) presidente do Brasil. Falar mal de pobre, de negros, de mulheres, de gays, ficou feio. Os homens reclamaram. “Está tudo muito chato”. Sim, que coisa isso de não poder mais usar o humor para diminuir quem já é cotidianamente diminuído pelas circunstâncias ao seu redor.
Quando o backlash veio, foi justamente através do humor, um que outro comediante sem graça e o ocasional colunista de jornal que se gabava de irritar quem já passava o dia irritado, as feministas, os petistas. Depois foi parar nas escolas, onde professores de história foram chamados de mentirosos e politicamente corretos.
Muita gente não se dá conta, mas o ensino escolar via de regra demora um pouco para assimilar o que é produzido de historiografia na universidade. Logo, a história que nossos pais aprenderam é diferente da que nós estudamos porque os tensionamentos à narrativa tradicional do Brasil produzida no século XIX - aprendida por nossos pais - começaram a ser postulados em meados do século XX, resultando naquelas explicações que qualquer pessoa da minha geração conhece para a realidade brasileira: colônia de exploração, pacto colonial, etc. Problematizar as relações raciais no Brasil, seu autoritarismo, através do estudo do passado não é reflexo necessariamente de uma adesão do campo da história a um comunismo (?), mas sim à problematização de modelos explicativos, buscando nos oferecer um quadro mais completo da realidade, com mais atores sociais, outras dinâmicas que não só as vontades de um Pedro chegar aqui de caravela e as de outro de fazer um país trezentos anos depois.
Quando começaram a falar de fake news, terraplanismo e depois negar que uma pandemia estava ocorrendo, a única coisa que pude fazer foi bocejar. Já tinha tido de lidar em sala de aula com alunos relativizando o Holocausto em exames, falando da fome na Ucrânia. Já tinha tido que desmontar a resistência de um aluno que jamais voltou a entender que a história tem mais de dois lados e que o que quer que o avô dele tivesse dito que ouviu falar em 1964 não dava chancela para negar a violência do golpe de estado daquele mesmo ano. Entrem na fila, pensava, ao ler jornalistas, cientistas, médicos, horrorizados com as pessoas de repente negando o que eles diziam.
O passado é o campo mais frágil e por isso o mais poderoso das disputas em torno da verdade. Existem limites éticos inclusive, de como devo agir em sala de aula em relação a determinados assuntos, porque dizem respeito a processos violentos e à constituição de identidades, a traumas. As coisas sobre as quais escrevemos quando escrevemos história não são reproduzíveis em laboratório; são tão invisíveis quanto um vírus e se geram patologias, não apresentam sintomas muito claros. Qualquer um que já fez psicanálise já deve ter se dado conta disso.
Dito isso, uma das coisas que mais me causa aflição nesse pós-pandemia, pós-governo Bolsonaro, são colegas e amigos que decidiram se arvorar, de maneira defensiva, em ideias de ciência, fato e verdade que me lembram os homens sobre os quais ensino que construíram essas instituições nas quais a cotoveladas muita gente conseguiu entrar. Homens que tinham laços com o tráfico de escravizados, que tratavam suas mulheres como nada, que se viam no direito de criar e nomear um mundo.
Acho que tem gente que não se dá conta de que esses espaços são excludentes e hostis e que precisamos, sim, nos armar até os dentes para combater as armas (literais) que desejam apontar contra nós, mas não é propriamente a nós que atingem. Eu continuo com meu emprego, com o prestígio de ser uma professora universitária. Isso me dá capital para circular por aí mais ou menos incólume; o simbólico e o que paga meus boletos no final de cada mês. A coisa é outra para meus alunos e alunas que provém de famílias em que eles seriam as primeiras pessoas a entrar nesse espaço; alunos que desistem na metade da escada do prédio em um dia de prova e voltam para casa por falta de acolhimento, preparo e compreensão; alunos em potencial que deixam de terminar um curso porque precisam ajudar a família a pagar as contas; e alunos em potencial que são mortos em operações policiais em favelas. Esses são o alvo, e a mesma ciência atacada pela extrema-direita ajudou para que fossem considerados como tal.
Esses dias um aluno me perguntou para que então servia a história se eu a desmontava tanto, mas tanto, de modo a gerar ansiedades naqueles que ali estavam para aprendê-la. Respondi que essa era a parte boa, que somos nós quem vai decidir que história vamos fazer e ensinar, sabendo dos buracos nos quais podemos cair, da cegueira de quem se crê transparente e no direito de falar pelos outros. Mais da metade do tempo não faço ideia do que estou fazendo quando estou dando aula, do que estou propondo quando desmonto todas as peças e tijolos desses prédios disciplinares e digo para eles que são “só mais uma forma de controlar a realidade, nada mais, e nem sempre funciona, não é completa, a gente só está fazendo uma partezinha ínfima”. And I think that’s beautiful, como diz o meme.
O consenso de quem tem razão com relação ao que são as luzes no céu de Porto Alegre essa semana, o que fazem as vacinas, o que dizem os jornais, os médicos, as urnas e os juízes se fraturou. Não há um culpado só e ele definitivamente não é quem questionou os pilares que o sustentavam. As instituições tradicionais entraram em crise moral junto com as elites que as forjaram, talvez porque essas mesmas elites tenham usado e abusado das mesmas para garantir seus privilégios. Não são as chamadas minorias. Essas queriam apenas usar seus próprios olhos e prismas para enxergarem o mundo ao invés de apenas estarem sob o microscópio.
Tenho achado peculiar o desejo de chamar os bolsonaristas de loucos, porque Foucault partiu da loucura para questionar todo o resto. Como diz esse texto que li na véspera das eleições, o bolsonarismo tem sua racionalidade própria, do mesmo jeito que alocamos racionalidade para outras culturas que dizemos respeitar. Existe a necessidade, sim, de remendar essa fratura, de responsabilizar culpados, de tratá-lo como é: uma extrema-direita criminosa, que matou muita gente nos últimos quatro anos, de vírus, fome e a bala. No entanto, quando ouço apelos de retorno à normalidade ou pior à civilização, me dá um arrepio na espinha.
O normal e a civilização aos quais essas pessoas se referem significava apenas pequenos passos em direção a tornar todas as pessoas de fato pessoas aos olhos do normal e da civilização. Como professora universitária, não quero a universidade na qual comecei a lecionar, não quero a que leciono, engessada. Quero uma melhor, que eu e meus alunos possamos fraturar.

