Romper o silêncio
Há formas de se desfazer do ruído que nos mata?
Meu último texto aqui, de meses atrás, foi sobre o silêncio. Disse a muita gente, na falta de uma expressão na língua materna, que me sentia all written out, como se, entre 2022 e 2025, tivesse me esvaziado de tudo o que tinha para escrever. De tudo que tinha para dizer, jamais, como sinalizou minha irmã quando prometi a meu sobrinho que sim, brincaria com ele depois de terminar de falar, uma promessa impossível.
Tenho me sentido assim não só em relação a textos aqui. Estou também saturada de escrever textos acadêmicos, já que me encontro naquela fase de um projeto de pesquisa em que é preciso calar a boca e apenas ler. Mas também e sobretudo, estou “nessas” com as redes sociais. Minha relação com espaços como o Twitter (e seu substituto mais anódino, Bluesky) passou a ser algo a que me refiro no pretérito — “fui muito tuiteira” — e que hoje me gera estranhamento. Que delírio, penso, ao ver posts alheios muito parecidos com os que eu cometia até há pouco tempo. Sinto o mesmo com o Instagram, quando vejo, entre as centenas de propagandas que o algoritmo presume que me vão interessar (Ozempic, calças para lipedema, packs de treinos “hormonais” e comida para os gatos que não tenho), posts de amigos como os que eu subia há coisa de um ano.
Com o perdão da aliteração, sinto um sem sentido.
Talvez porque seja hora de calar a boca e apenas ler ou fazer.
Na universidade onde leciono, assim como em muitos outros lugares públicos no país, colocaram um banco pintado de vermelho num ponto de grande circulação, desses referentes à violência contra a mulher, que nos convidam a “sentar e refletir, levantar e agir”. A relação que estabelecemos com objetos em espaços públicos que servem de marcos para algo é um pouco de cada um. Há quem se persigne quando passa em frente a uma igreja, há quem se detenha diante dos monumentos que lhe dizem algo e há quem passe reto, ensimesmado, e nem se pergunte o que faz aquilo ali naquele lugar. O mesmo acontece com notícias: algumas seguem ciclos mais longos do que outras, produzem rating, cliques e geram atenção por mais tempo, enquanto outras apenas morrem no dia seguinte.
Escuto e leio muita gente conhecida dizendo que estamos vivendo uma epidemia de feminicídios no Brasil. Epidemia parece pouco para o abrumador fato de que, a cada seis horas, uma de nós é assassinada. O tempo de um turno de trabalho, uma viagem de Porto Alegre a Florianópolis, uma noite de sono, uma tarde maratonando uma série, pontuados pela morte violenta de alguém como eu. Esse fato mereceria, na minha modesta opinião, que saíssemos todas a quebrar tudo na rua, a escrachar agentes públicos, a incendiar o que pudéssemos. Mas não: escolhemos a via mais educada para tentar resolver essas coisas, através campanhas de conscientização que precisam competir com o algoritmo que alimenta o próprio ímpeto de nos matar.
Poucas vezes abro o TikTok, apenas quando Sebastián quer me mostrar algo que viu; então, esses dias, o que me apareceu depois do vídeo de gatos que o fez rir foi um homem falando sobre mulheres e redes sociais. Dissertava sobre as que trocam a foto de perfil todos os dias, as que sobem stories o tempo todo versus as que não. A mulher offline estaria, na opinião desse sujeito, construindo algo, ao contrário da outra. Misoginia validadora não apenas para que homens possam nos julgar, mas também para nós mesmas, perante aquela nossa amiga que posta, dia sim e dia também, uma selfie no espelho. Uma misoginia tão ou mais velha do que os romances de costumes dos séculos XVIII e XIX, que nos ensinavam a ser virtuosas e a encontrar um marido decente, do que as revistas femininas que mães e avós liam entre afazeres domésticos e que os programas de rádio matutinos que elas escutavam.
Semana passada, dias antes de se comemorar a primeira marcha do movimento Ni Una Menos na Argentina, uma menina de catorze anos, chamada Agostina Vega, desapareceu em Córdoba. Seu corpo, destroçado, foi encontrado num terreno baldio uma semana depois. O principal acusado, já detido, é um jovem de quase vinte anos a mais, que teria tido uma relação com a mãe dela, com antecedentes de violência de gênero que a justiça achou por bem relevar. De acordo com o motorista de táxi que a levou até a casa de seu suposto assassino no momento em que ela desapareceu, Agostina estaria indo encontrá-lo porque eles iam fazer uma surpresa para a mãe dela. O sujeito chegou a pagar o táxi, ocultando o rosto. Na quarta-feira, último dia 3, para marcar o Ni Una Menos, milhares de mulheres e meninas saíram em todas as cidades argentinas a reclamar a mesma coisa de sempre, como visto na foto desse post. Pediam a mesma coisa que murmuramos aqui toda vez que vemos uma notícia parecida. Que parem de nos matar.
Isso na semana em que, no Congresso brasileiro, se retornou à pauta que torna quase impossível que uma menor de idade interrompa uma gravidez resultante de uma violação. Existem poucas palavras capazes de expressar o que, numa mulher, gera uma gravidez não desejada, tanto que Annie Ernaux ganhou o Nobel por arranhar a superfície com a própria experiência. Obviamente, para muita gente, o corpo das mulheres, mesmo quando são vítimas de estupro, merece o mesmo apreço que o corpo de Agostina, destroçado, colocado em sacolas e abandonado, se ele não serve aos propósitos elevados da reprodução. Esse mesmo corpo que, depois de encontrado e lamentado, tem suas redes sociais minuciosamente evisceradas para detectar algo que justifique tamanha violência. Como disse Ofelia Fernández, nem mortas nos deixam em paz.
Voltei a escrever porque meu silêncio, nesse caso, me incomodou, porque parece pouco um post, um tweet, um reposteio, esse texto. Que difícil é falar algo de relevante em meio a tanto ruído.



Seus textos estavam fazendo falta.