Repuxo
Desde a terceira ou quarta série me sinto só. Uma frase, um telefonema, um olhar ou um dar de ombros. Não sei qual deles foi, mas me vi como um erro a ser apagado nos cadernos sempre meio grosseiros e de capa verde que o colégio nos obrigava a ter. Achavam que assim nós não nos sentiríamos a sós naquela escola tão solitária entre muitas outras. Que nos sentiríamos iguais e incluídos se tivéssemos cadernos idênticos, se usássemos uniforme.
Parecia que aquelas pedagogas, todas mulheres, estavam tentando resolver sua própria solidão tentando eliminar a nossa.
Não conseguiram. Eu, pelo menos, me vi entre as latas de lixo reciclável em um canto do pátio, junto ao muro, comendo minha merenda sozinha ou então acompanhada de uma outra menina de quem ninguém gostava muito, inclusive eu mesma, e que tinha o mesmo nome que eu. Lembro de uns joelhos enormes abaixo do elástico dos shorts de lycra que estavam na moda, meias marcas Pulligan, uns pacotes de biscoitos recheados São Luís; certo escárnio (dela) e medo (meu).
Meu último dia naquele lugar foi possivelmente o que mais me senti aliviada na vida. Jamais precisaria pisar ali ou ver a maior parte daquelas pessoas de novo, e no ano seguinte me enfiei no maior colégio de ensino médio que encontrei na cidade, onde sabia que passaria anônima por três anos velozes. Quando tentei entrar ali depois de formada, à guisa de buscar minha irmã mais nova, o porteiro que antes me reconhecia me olhou com uma expressão vazia no rosto. Senti um alívio que só encontrei adulta na primeira vez que fui para uma cidade grande, onde se falava espanhol e eu podia andar rápido, invisível.
Essa semana comecei a ler Mandíbula, da equatoriana Mónica Ojeda, que trata de duas mulheres - uma menina de um colégio bilíngue de elite e uma de suas professoras - que navegam aparentemente muito mal essas águas turvas de ser mulher. Especialmente esse mar mexido de inverno que é ser mulher na América Latina, um continente que arranca qualquer inocência que as crianças venham a ter cedo demais, especialmente a de futuras mulheres.
Quando morei fora, em outro hemisfério, tinha amigas de quem gostava muito e com quem me sentia à vontade, mas nem por isso me sentia menos só, porque ser brasileira me tornava inevitavelmente mais adulta, assombrada por alguns horrores desde muito cedo, reais, hipotéticos ou imaginados. Essa coisa distópica de ter crescido andando sem cinto de segurança, vendo pessoas nuas na televisão em todos os horários, pobres nas sinaleiras; ouvindo muitas barbaridades e alguns tiroteios.
Navegar ser mulher sempre foi para mim como o dia em que meus pais estacionaram o carro na beira da praia no Litoral Norte para vermos o mar de ressaca, que batia em uns sacos de areia empilhados de modo a segurar o calçadão no lugar. As guaritas naquele dia pareciam embarcações perdidas, afundadas no meio da água em um dia cinza. Havia um vento cortante e areia por todos os lados, serpenteando entre nossas pernas e fazendo-nos sentir nossa pele como se tivesse escamas. Lembro de meu rosto enfiado no capuz de um casaco de nylon, duro de frio. Depois entendi que era resignação.
Crescer na minha família tornou-se então sair destemida para dentro do mar violento, com uma mulher na areia gritando com um sotaque de outro continente - ela própria tendo cruzado o oceano em um barco, sozinha -, para que eu evitasse os buracos, não me afogasse. Até hoje as mulheres da minha família arremedam qualquer frase com uma recomendação, mesmo que conscientemente inútil. A frase, muitas vezes repetida, “tu é doida, Renata”.
Até hoje quando estou só, quando estou em algum lugar improvável mas confortável demais, ouço minha avó ou minha mãe me dizendo para eu cuidar com o repuxo. Só que na maior parte das vezes, admito, o repuxo são outras mulheres.
Ainda não terminei Mandíbula, mas entendo o terror que ele apresenta, as violências literais que as mulheres ali cometem umas contra as outras como exageros das agressões e micro-agressões que nós nos dirigimos e imprimimos cotidianamente. Entendo essa violência como sendo mecanismos de defesa muitas vezes inconscientes, efeitos de um mundo que nos obriga a termos olhos nas costas e desconfiarmos de todos e todas o tempo todo. Escondermos quem somos de verdade, nossas vulnerabilidades. Meter medo nos homens e em nossas companheiras. “Por que você gosta tanto de assustar os outros?”, pergunta uma das protagonistas do romance, em uma página que fotografei. “Porque me faz sentir adulta como minha mãe.” “Porque me faz começar a imaginar”, responde sua melhor amiga.
Assustar os outros é muito parecido com levantar de um banco de ônibus rápido demais por sentir algo quente e viscoso entre as pernas, pensando não no incômodo de viajar com a calça úmida, de ter de lavar aquilo depois, mas sim em que minha situação ficaria evidente. Minha calça suja de sangue evidenciando que minhas regras chegaram, minhas mãos sujas de sangue em um banheiro de paradouro, como se eu tivesse matado um bicho, porque meu corpo não tem a mesma agenda que eu.
Tenho um carinho especial pelo termo “regras” para menstruação - esse assunto que, por regra, raramente discutimos em público.
Naquele colégio, o terrível, fui a primeira a menstruar na minha turma, e todo mês eu passava pelo horror absoluto não apenas de ter de andar com um absorvente entre as pernas (intimus gel, com abas), mas de ter de me deslocar durante as aulas para trocá-lo da forma mais discreta possível. No inverno enfiava-o dentro da manga do moletom, mas no verão - quando aquilo se enchia não apenas de sangue mas também de suor - isso era impraticável. Metia no elástico da bermuda, por baixo do camisetão, e ia. Ia sozinha, com a solidão me pegando pela nuca com uns dedos gelados dos quais até hoje não me desvencilhei.
“Quero um dia lamber tua menstruação”, me disseram uma vez durante o recreio, quando eu ainda era bonita e nem menstruava ainda, coisa que as personagens de Mandíbula fazem umas com as outras, on a dare. No meu caso, fiquei dias e dias me perguntando o que tinha feito para ter de ouvir algo assim. Não contei para ninguém. Talvez se tivesse, alguém me diria que já tinha passado por isso e me sentiria menos só.
Acho que é disso que sinto falta quando sinto que não tenho amigas. Quando acho que não sei ser uma amiga, porque aprendi cedo demais que amigas podem ser traiçoeiras e um dia simplesmente me trancarem sem roupa no banheiro da escola, rirem pelas minhas costas ou ameaçarem quebrar meus dentes na saída porque fiz um comentário qualquer sem que elas estivessem presentes.
Meus piores pesadelos sempre envolvem as amigas que não consegui ter, principalmente aquelas que perdi sem que saiba muito bem como.
Todas minhas relações pressupõem esse abandono, normalmente das outras, o momento em que voltarei a estar sozinha. Ou então a solidão de não conseguir comunicar minhas opiniões, minhas preferências, meu mundo interno, frente a outras tão diferentes de mim, e que escuto tão detidamente para tentar aprender algo, perder todos os meus sotaques. Blend in, ainda que me sentindo sempre inconveniente, alijada, sempre um “a” cursivo grande demais nas pautas no caderno verde. Um erro mal apagado por ter apertado o lápis demais.
Não acho Florence Welch boa letrista, mas há um par de versos de uma canção que sempre me pega: “The loneliness never left me/ I always took it with me/But I can put it down in the pleasure of your company”.
Esse final de semana meti os pés em um mar revolto pela primeira vez em muito tempo. Senti tatuíras andando por cima dos meus dedos, subindo pelos meus calcanhares e fazendo cócegas nos meus tendões de aquiles, companhias que cultivei desde criança e na adolescência, nas praias em que eu passava muito tempo sonhando acordada. Sonhava que era uma sereia, que era um golfinho, que estava em um navio disfarçada, que estava por fim sozinha fisicamente, já que a solidão me agarrava desde sempre, como o repuxo, e talvez fosse desejável. Umas águas como as de Alfonsina, como as de Virginia, mas apenas no bom sentido. Uma espécie de redenção.
Nesses últimos dias, sentindo o que talvez fossem centenas de criaturas andando sobre minha pele, pensei que nunca estamos de fato sozinhas. Nem em praias desertas, nem em águas turvas, nesse mar mexido de inverno, difícil de navegar.


Tu é de onde, Renata?