Partículas
Algumas linhas sobre Elena Ferrante e Denise Ferreira da Silva.
(Lila e Lenù correndo)
Confesso que esse não era o texto que queria escrever. Queria escrever algo mais contundente e que eu terminasse de reler A dívida impagável de Denise Ferreira da Silva e de assistir My Brilliant Friend no Max antes de escrevê-lo. Mas o tempo urge e esse é um espaço de esboços que não precisam ser perfeitos. Nada é.
Apesar de ser ambientada e escrita na Europa, a tetralogia de Elena Ferrante, distribuída na televisão em quatro temporadas, se passa num dos cantos dela que menos Europa é, o que fica evidente na pele escura e disruptiva de Lila, que quase esquecemos que se chama, na verdade, Rafaella. Escrevi no BlueSky que as histórias de Lenù e Lila me comoveram quando as li porque tratam inicialmente de uma experiência que parece transcendente: ser estranha, ter espinhas, gostar de ler e ter colegas tarados que querem ver teus peitos. De resto, não tenho muito em comum com elas. No Sul Global, eu sou do Norte. Sou a filha da Professora Galiani, tanto que li Little Women no original aos treze anos, uma edição em paperback na qual não mexo muito para não se esfarelar.
A verdade é que essa experiência da puberdade e seus incômodos só parece transcendente porque estamos, nós que a passamos de uma determinada maneira (sujando a roupa com menstruação e sendo assediadas no banheiro da escola), presas no mesmo código, digamos, ontoepistemológico. Nossos corpos são catalogados, considerados, medidos e avaliados por parâmetros inventados pelo que Denise Ferreira da Silva chama de Mundo Ordenado, construído por filósofos europeus do século XVIII. Ela se refere, ainda, a uma categoria que nesse ranking de corpos, carne, peitos e sangue ocupa uma posição ainda mais subalternizada: a da mulher nativa ou negra. Lila, de Elena Ferrante, está no limiar dessa posição. As mulheres da Península Itálica, para a turba que escreveu todos os livros complicados que orientam nossa maneira de ver o mundo, ocupavam também um lugar racializado, menos branco, em relação às mulheres nórdicas. Ver, por exemplo, um romancezinho esquisito de 1807 escrito por Germaine De Staël, Corinne ou l’Italie, que foi bastante paradigmático nesse sentido.
Germaine na verdade se chamava Germaine Necker, era filha do homem que foi ministro das finanças de Luís XVI — aquele, sim — e cuja renúncia em 11 de julho de 1789, entre outras coisas, precipitou um evento de relativa importância para o plano da história ocidental, a queda da Bastilha. Só. Falamos muito de Kant e Hegel, mas ignoramos as mulheres letradas que conviviam aos cotovelaços com esses homens e seu trabalho de racialização de outras mulheres.
Denise Ferreira da Silva propõe que ver o Mundo através do corpo sexual da mulher negra ou nativa por fora dos esquemas construídos pela ciência e pela filosofia ocidental é algo similar à física quântica. Considerado sozinho, nele o tempo da História, equiparado ao tempo mecânico da física newtoniana, não faz muito sentido. Dissolve até mesmo as relações de causalidade, uma partícula solta. Isso explica nosso sentimento ao vermos certas coisas acontecerem e termos aquela reação burra “2024 e ainda isso”, “I can’t believe I’m still protesting this shit”. 2024 é um marco inventado que mal e mal dá conta do envelhecimento da carne dessas mulheres, presa em arranjos que parecem atemporais. Por isso, Ferreira da Silva aponta os buracos deixados pelo marxismo, esse filho de Hegel, cujos adeptos tendem a olhar com desconfiança quando minorias reivindicam seus direitos para além das demandas da chamada luta de classes.
Essa semana, a Comissão de Justiça da Câmara de Deputados aprovou a tramitação de um projeto de lei que criminaliza o aborto no Brasil em qualquer circunstância, com a intenção de despir a nós, mulheres, dos farelos de controle que tínhamos sobre o que nos acontece. Isso atinge especialmente as mulheres periféricas, mais vulneráveis a todo tipo de violência, principalmente dentro de casa. Partícula solta, quando manifesto, o corpo da mulher causa espanto e uma das formas de controlá-lo é mediante a violência, inclusive a sexual. É Lila criança voando pela janela de casa e depois casando com um sujeito para se safar, só para apanhar mais e ser rotineiramente estuprada por ele.
Nos livros de Ferrante, ninguém sabe muito bem o que fazer com Lila. Com Lenù, as coisas se acomodam de maneira um pouco mais fácil, com seus olhos, pele e cabelos mais claros. A filha do contínuo com uma mulher manca. Lila é outro animal, é a partícula que não obedece às leis da física clássica e com quem nem as mulheres que a cercam sabem lidar, pois ela perturba todos os arranjos, que possuem até mesmo espaço para a mulher que, abandonada pelo amante, enlouquece.
Na verdade, Lila só queria poder ocupar algum lugar no mundo por si e não com sua carne atrelada a um valor.
Ando muito por aí sozinha, partícula solta, mas em geral, protegida pela cor da minha pele e por uma cara de tacho, ninguém se mete muito comigo. Exceto quando sim, quando estou num ônibus ou rodoviária e sinto que tem algum sujeito me olhando por mais tempo do que deveria, e minha carne é reduzida a essa coisa que deve ser controlada, colocada em seu lugar e sinto as leis que dispõem sobre ela e sobre os corpos das mulheres diferentes de mim em meu país repousando na minha nuca com um arrepio.



Teus escritos descem devagar pela goela, feito uma torrada mal mastigada onde um pedaço maior do que deveria começa a machucar o esôfago até te fazer lacrimejar e te obriga a esticar a mão, pegar a xícara ou o copo ou o que quer que contenha algo líquido e tomar um gole mais longo, tomara que a bebida que for não esteja muito quente pro estrago não ser duplicado. Mas depois que o nó se desfaz e a dor diminui volta-se à lembrança de que torradas são ótimas pela manhã, não à toa costumamos passar com frequência pelo mesmo café. Obrigado por isso.
texto maravilhoso! pensei muito já (e conversei com amigas) sobre como a tetralogia conta de uma periferia da europa - não só o bairro é a periferia de nápoles, mas nápoles é a periferia da itália e a itália é uma certa periferia da europa central mais rica -, por isso também é possível traçar paralelos com o que vivemos cá na nossa periferia. mas a dimensão da racialização das duas tinha me escapado até agora. adorei. e o livro da denise tá na minha estante esperando um tempinho para ser lido, parece importantíssimo. obrigada pela reflexão!