Hola from the other side
Algumas linhas sobre a submissão contemporânea.
(Uma foto de dezembro de 2001, quando todo se pudrió - Wikipedia)
“Os argentinos não vão aceitar essa merda toda assim no mais”, ouvi muita gente dizer quando Javier Milei foi eleito dando uma tunda no candidato peronista. Sergio Massa, derrotado nas urnas, era o então ministro da economia de um governo que terminava débil e sobre o qual os últimos sacramentos incluem recentes acusações de violência de gênero contra quem era oficialmente o mandatário do país.
Suponho que essa percepção nossa a respeito dos argentinos tem muito a ver com um misto de elementos: a grama mais verde do vizinho em alguns aspectos culturais, o histórico das manifestações de 2001 e dos julgamentos de ditadores e torturadores, bem como a facilidade para insultar em público cotidianamente ou então inventar cânticos de torcida. É um pouco o que também se aplica ao Uruguai e a ilusão de conforto e civilidade que sentimos quando pensamos nesse lugarzinho, que na verdade é bastante pobre e um paraíso fiscal e de sojeiros, e que tornou o duelo armado entre cavalheiros ilegal apenas no final dos anos 1980.
Semana passada disse que nossa percepção da história do Brasil como um contínuo feito de rupturas mais ou menos pacíficas — da independência feita com um grito passando pela república proclamada com outro, ao golpe militar na calada da noite — em oposição à ideia internalizada de guerra civil ali do outro lado contribui para isso. Por algo no Brasil temos a imagem ubíqua do general de pijama, apesar dos livros escolares estarem cheios de episódios violentos, de cabeças cortadas e expostas, de gente fuzilada ou mandada à forca, de derrotas celebradas.
Quando estourou a pandemia, em março de 2020, e me dei conta de que o governo brasileiro nada faria para conter o vírus e depois dobrou a aposta com a propagação de tratamentos esdrúxulos, pensei que estávamos às portas do caos social. Mudanças climáticas, guerras e epidemias são catalisadores de grandes revoltas ou de movimentos políticos desestabilizadores, como podem atestar alguns imperadores romanos, o rei Ricardo II da Inglaterra e a Revolução Francesa. A maior parte desses acontecimentos comuns nos livros canônicos de história foram de maneira geral capitaneados por setores médios da sociedade que viram uma oportunidade de ascender socialmente e aproveitou uma maré de descontentamento social da classes populares para literalmente quebrar tudo.
Supus que na Argentina não seria diferente, pois a defesa do governo que terminou ano passado geralmente envolvia o azar da sequência de pandemia, guerra no leste europeu e uma seca histórica. A classe média não se deixaria pisotear, pensei. Todos esses elementos elencados “de manual” de uma crise humanitária surtiria algo. A verdade é que, nove meses depois, caminhar pelas ruas de Buenos Aires não é muito diferente de caminhar em qualquer outra cidade grande no contexto pós grande recessão de 2008, pós pandemia, pós todas as coisas, mesmo com uma inflação galopante (agora ando com bilhetes novos de 10 mil pesos nos bolsos, um descalabro). Nas ruas, há muita gente pobre com jeito de quem recém perdeu a casa, há muito trabalhador informal, como aqui também se tornaram onipresentes os cartazes pedindo ajuda para comprar comida ou fraldas nas mãos de pessoas desesperadas. Há protestos: dos aposentados, que foi duramente reprimido; das universidades; dos movimentos piqueteros que nunca de verdade saíram das ruas no século XXI urbano argento.
A todo momento, falavam, desde o final do ano passado, de que a coisa “se iba a pudrir mal”, “explotar”, “estallar”, suponho que por causa dos antecedentes do início do século. E no entanto, nada. Zero. Entendo que isso ocorre pelas mesmas razões que, frente às chuvas que destroçaram o Rio Grande do Sul no primeiro semestre esse ano, ainda assim o prefeito responsável tende a se reeleger e figuras da extrema-direita ganharam ao invés de perder força. Deixo aqui a sugestão para ler quem realmente estuda isso e não a mim, que tão somente opina desde uma mesa de café ou de padaria num substack. Em resposta aos dados do INDEC a respeito da pobreza na Argentina, a máquina do governo trabalha a narrativa de que não se tem como sair da “festa” promovida pelo “populismo” sem sacrifícios. A pobreza e a indigência, afinal de contas, também têm seus próprios negacionistas, como atesta aquela frase famosa de John Steinbeck a respeito dos Estados Unidos não ter pobres e sim “milionários constrangidos”.
Ainda a isso tudo, percebo que nos tornamos de modo geral muito submissos. Da mesma forma com que aceitamos os termos e condições dos aplicativos que se tornaram uma extensão das nossas vidas — sociais, laborais e de desfrutar do mundo —, aceitamos também que existam pessoas como Steve Jobs e Bill Gates e suas encarnações mais recentes, cada vez mais nefastas e esquisitas. Durmo e ando por aí sempre ouvindo podcasts, então num que andei escutando dois historiadores, falando sobre a Revolução Francesa, lembraram que muitos membros do chamado Terceiro Estado eram favoráveis à isenção de impostos da nobreza e do clero não só porque era a ordem natural das coisas, mas sim porque também tinham — dentro dos limites da mobilidade social — a ambição de um dia atingir tal condição. Até que não.
É mais ou menos, suponho, o que sustenta as distinções entre bilionários, influencers e simples mortais e que fazem com que se desculpe em políticos de direita coisas que jamais deixariam passar naqueles do campo oposto. Há algo na admiração a essas figuras que pressupõe a hipocrisia, a ostentação e a fuga de capitais. Esta última, inclusive, é um feito heroico porque significa que o bacana está lesando aquilo que limita a alegria do infeliz que o acompanha nas redes sociais: o Estado, as leis, o politicamente correto e os boletos no final do mês. O Estado, querendo ou não, passou a ser algo vinculado ao campo de esquerda, como atestam os princípios do partido criado por Javier Milei e que foi lançado nacionalmente neste final de semana.
O Estado, salvo eu esteja enganada, hoje abarca a origem da infelicidade de muita gente, de todas as classes sociais. As formas de ganhar dinheiro, de transitar pelo mundo e de nos comunicarmos à sua margem se tornaram muito populares nos últimos anos. Não é mais só o caso do ocasional contrabando do Paraguai e do próprio sistema financeiro. Soma-se a isso o fato de que as engenhocas que sustentam tudo isso apontam para o futuro quando o campo político da esquerda e sua defesa do Estado foi arremessado pelos movimentos antipolítica ao passado.
O que faremos com esse animal que, quando funciona, é a despeito de si e não por mecanismos que são intrínsecos à sua origem, no que chamamos de Antiguidade? Algo me diz que nos refugiarmos numa nostalgia, a la Soviet Visuals e Criança Petista não é uma resposta sustentável.


