Dopaminas
Sobre não soltar o celular e as amizades online.
(A dose of dopamine, que a internet me diz que é de Nadiia Dubei)
Ando constatando que a docência, em alguns sentidos, não deixou a pandemia para trás. Não falo da proliferação de cursos à distância, dos colegas que se acostumaram a dar aula de suas casas, mas sim da sensação persistente de que, de certa forma, continuo muitas vezes falando como se fosse para avatares, antes as câmeras desligadas de gente que poderia ou não estar prestando atenção em mim. Já tive muitas turmas de discentes tímidos, que não falavam em aula, mas pelo menos esses estavam me olhando.
Hoje, alguns sequer me olham porque estão presos ao celular.
Costumo dizer que sou pós-graduada em estar num lugar sem estar. Quando entediada com alguma situação na infância, deixava minha cabeça ir a qualquer parte, menos onde estava. Isso me foi muito útil quando passei pela graduação e não necessariamente queria ficar por quatro horas prestando atenção na mesma pessoa. Poderia manter meus olhos presos à minha frente — ou seja, fazer o mínimo — e ainda assim estar em Nárnia. Os prejuízos por minha desatenção colhi na forma de notas, em coisas que poderia ter aprendido e optei por não aprender. Estudei num período em que os professores estavam apenas começando a se converter, também, em palhaços, na tentativa de seduzir alunos como eu, irrequietos, viajandões. Era uma questão de mão-dupla: o formato das aulas na universidade, que demorei a aturar, e eu, uma viajandona.
A questão é que se sentir invisível por conta de um aparelhinho na mão alheia não se resume à sala de aula. Com celular ou não, a maioria das pessoas têm se deslocado pelo mundo desatentas àqueles ao seu redor: no trânsito, nos parques, nos ônibus intermunicipais quando viajam vendo vídeos sem fones de ouvido, ou então nos salões de beleza ao conversar alto. As salas de espera dos médicos hoje têm avisos pedindo para que as pessoas não usem o celular sem fones; as academias, para que as pessoas não monopolizem os equipamentos. Para quem cresceu com o imperativo de fazer silêncio nas sestas, todos esses alertas relativos à paz de espírito alheia parecem redundantes.
O que tanto buscamos no celular, me pergunto, eu mesma vítima dos ícones de apps entre os quais pulo metodicamente atrás de algum sentido para meu dia a dia? O que eu faria se não o tivesse ali na minha mão, outro que entrar em pânico? Como alguém que dilacera os cantos dos dedos, sei que na maior parte das vezes o celular é algo que aplaca meu desconforto, quase como se eu ainda fosse um bebê. Não à toa, os capítulos dos livros andam mais curtos. Não à toa, muitos de nós incorporou o dumb scrolling como algo a se fazer antes de dormir, da mesma forma que pais desesperados por acalmar seus filhos pequenos os colocam na frente de um vídeo da galinha pintadinha. Ninamos a nós mesmos com brain rot, com o que o algoritmo acha que gostamos de assistir.
Queremos nos sentir bem, é o que penso, e por isso nos gera tanta satisfação encontrar coisas e pessoas com as quais nos identificamos ou quando coisas que antes pareciam problemáticas são eximidas de problemas. No que diz respeito a esse último, falo da conversão de coisas “ruins” ao “nosso time”: leia-se o cristianismo do bem, o nacionalismo do bem, o aceleracionismo do bem, o ministro do STF do bem. Por isso não resistimos a um vídeo de parada militar chinesa nos explicando por que eles têm orgulho de seu país ou então a um rebranding de qualquer pessoa que, alguns anos antes, teria nos deixado de cabelo em pé.
É realmente apaixonante perceber coisas que no mundo que validem nossa visão a respeito dele.
Essa mesma atitude, de identificação e recompensa imediata, é levada para a esfera privada que, na internet, são os chats e as DMs. Tive muitas amigas online desde a adolescência, em geral pessoas com as quais eu tinha algum interesse em comum. Nossa comunicação, no entanto, era feita de longos silêncios entre ocasionais e-mails ou conversas pontuais, normalmente de madrugada. Nada tinha me preparado para, aos quarenta anos, ter de lidar com o frenesi das amizades online de hoje em dia, em que acordamos com 539 mensagens num grupo de Whatsapp, com quatorze áudios da mesma pessoa falando, na verdade, de outras pessoas na internet. Houve um momento em que me dei conta de que eu estava naquela apenas para satisfazer minha ânsia de dopamina e a alheia.
Entendo perfeitamente, depois de passar dois anos fechada dentro de casa, o pequeno rush que notificações, qualquer que seja, geram. Por isso os aplicativos todos nos empurram notificações, como se fossem balas. Quando se trata de uma mensagem de alguém de carne e osso que se importou com algo que dissemos, fotografamos, postamos, essa sensação é ainda maior. Tenho certeza que muitas pessoas com as quais me relacionei nos últimos cinco anos queriam apenas isso de mim: a resposta como uma gratificação hormonal. Do contrário, não ficariam me acionando repetidas vezes, sem se importar em responder quando era eu que ia atrás da mesma satisfação.
Queremos nos sentir bem. E quando nos sentimos mal, recorremos ao exposed, como se não se dar bem com alguém fosse motivo para um pequeno apocalipse online. Sempre lembro do caso de uma tuiteira que perdeu a mão e bloqueou, num dia, umas quinhentas pessoas, porque fez o chamado “block preventivo” de quem ela já sabia (!) que ia discordar da sua opinião.
Um sem sentido que, na minha modesta opinião, só a química explica.



é muito doido olhar pra trás e perceber como o ano de 2020/pandemia foi uma ruptura gigantesca na nossa realidade. às vezes até me pego meio nostálgica lembrando de como era antes da pandemia. parecia que a gente tinha um pouquinho mais de controle em relação a essa conectividade constante né, sei la.
uma situação que eu observo, com incômodo, é que ficar no celular se tornou algo aceitável socialmente, desde o início. nos mesmos cenários em que eu não podia tirar meu livro da bolsa e ler um capítulo, hoje tá todo mundo de olho na tela como se estivessem resolvendo algo importante, prioritário para o momento. eu lembro de fazer um teste uma vez e li vários capítulos de um livro no celular no meio de uma festa e ninguém disse nada (hoje eu só veria a timeline do Instagram mesmo). e na semana passada vivi um incomodo mais recente que foi sair com amigas e perceber que por vários minutos o assunto da mesa foi VIDEOS DA INTERNET, então no próximo encontro vou levar esse texto pra discutirmos juntas rs