Debret
A previsão de um ciclone em São Paulo
No sábado acordei rouca. Minha voz se foi, pouco a pouco, ao estar pela primeira vez em São Paulo, ao entrar no Museu do Ipiranga e, de mãos dadas com um estrangeiro, ter que explicar tudo que estávamos vendo. Duvido que muitos leitores e leitoras saibam os pormenores da independência de outros países do continente, então podem imaginar como me vi na situação de ter que apontar e explicar D. Pedro I, os variados “bandeirantes”, o grito do Ipiranga e, por fim, a desconstrução dessa narrativa. Esse ato de desconstrução — da história, do cânone, da arte — parece ubíquo na maior parte dos museus que visitamos, não só no Museu da USP, cujas exposições refletem a produção historiográfica recente.
Sebastián parou abismado no Itaú Cultural diante das gravuras de Debret em que aparecem escravizados — castigados ou não —, essas que nos queimam as retinas desde muito pequenos nos livros didáticos, de tal forma que quase não reagimos ao ver as originais. Qué tremendo, boluda, dizia a cada imagem explícita de violência retratada e que, para mim, era tão natural quanto desviar de um corpo dormindo na calçada. Essa casca que criamos, desde crianças, num país desigual.
O que me chamou a atenção nas exposições que vimos foi justamente a convocação à reação e não o contrário, em espaços no centro da cidade mais rica do país, bancados por sua elite financeira, com exposições curadas em sintonia com o que poderia ser chamado, vulgarmente, de mais puro woke. Sei que dinheiro é dinheiro, então os nomes não precisam necessariamente coincidirem, politicamente, com a proposta da curadoria, se é que vocês me entendem. Isso tudo tem relação com coisas a respeito das quais tenho refletido, isto é, com como os espaços da alta cultura têm se convertido nesse lugar feel good para nós, consumidores de tote bags, muitos dos quais fomos votar levando um livro em 2018. Nós que defendemos a “ciência” em oposição às “trevas”, a “democracia” de Ulysses Guimarães em oposição ao seu escárnio manifestado por homens com ternos mal ajustados e queixos com harmonização facial.
Nessas horas, ao ver tanto análogos a mim desfilando em roupas cômodas em salas de exposição, me pergunto se apenas não nos tornamos confortáveis com tão meramente um despotismo esclarecido de quem realmente tem dinheiro, cuja maré opositora não precisa fazer muito para mantê-lo nos museus, nos corredores mofados de universidades cada vez mais vazias, nas livrarias pequenas de bairro. O que sobrou da chamada “onda rosa” latino-americana, talvez hoje em dia apenas transformada em commodity, em políticos que parecem mais à vontade na capa da Vogue do que fazendo política.
A diferença entre nós e quem vê algo a apoiar na canela inchada de Jair, circundada por uma tornozeleira queimada por um soldador.
Me perdoem o pessimismo, mas sou uma pessoa atravessada pela previsão do tempo.
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Durante toda minha estadia em São Paulo houve a promessa de um ciclone na costa. O horário da chuva variava: era sexta de noite, era sábado, era só segunda ou então no domingo, bem quando eu estaria apresentando Inundadas numa livraria. Os dias se emendaram com um céu azul estúpido, três gotas de chuva e uma garoa fina (“A São Paulo le decimos ciudad de la llovizna”, expliquei enquanto comíamos moela e jiló).
No topo do Museu do Ipiranga nossos olhos não suportaram a luz e meus ombros se queimaram. Como no fim de semana do show do Vitor Ramil em Porto Alegre, sobre o qual escrevi em meu último texto, meu celular abundava em alertas de chuva excessiva, de vento, de um rastro num mapa como se isso aqui fosse a Carolina do Norte em plena hurricane season.
Fizemos e desfizemos planos, como muitos daquela vez também. Como daquela vez também, o evento climático extremo passou longe de nós: aquela semana uma cidade arrasada por tornado no Paraná; agora, as ruas de Erechim repletas de granizo, um prejuízo inaudito.
Tenho a sensação, ao ouvir as notícias e os comentaristas, de que com as prisões dos últimos dias — esse dia de sol imprevisto —, estou como alguém que saiu com um guarda-chuva sem necessidade. É possível que, nesse país em que as gravuras de Debret são um lugar comum, que a decência tenha vez? Ou se trata apenas de uma questão de conveniência, se livrar de quem tem tão poucos modos e um soldador?
Talvez seja melhor, no meu caso, desconfiar de todas as previsões.
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Em breve, a conversa que tive (rouca) com André Araujo na Livraria Ponta de Lança estará no Youtube. Sigo convidando a, quem quiser, ler Inundadas, que está à venda aqui.



um pouco de “menos pessimismo” (pois declarar otimismo já é demais) — porém desconfiando sempre.
grata por teus textos, aprendo bastante.