Consumir vítimas
Sobre as redes, muita gritaria e nossa paralisia.
Há alguns anos, em outra vida, conheci uma pessoa que me fez duas perguntas que me deixaram chocada. A primeira foi se Simone de Beauvoir tinha sido assassinada. A segunda foi se Karl Marx era a favor da violência. O que menos me deixou perplexa foi a falta de conhecimento geral, já que sabemos que ter estudado em um bom colégio não é garantia de nada no Brasil: somos treinados, quase de maneira pavloviana, a responder uma prova, em vez de sermos ensinados o conteúdo dela. O que me deixou catatônica foi a pressuposição de que, para ser uma feminista famosa, alguém precisasse ser vítima de algo, e que aquela cria dos cruentos processos revolucionários europeus do limiar do século XIX pudesse ser um pacifista, mais ou menos como essas versões já lavadas e prontas para consumo de Martin Luther King e Nelson Mandela.
“Que parte de ‘tomada violenta dos meios de produção’ tu não entendeu?”, foi minha resposta sardônica.
“Ah, então não estou de acordo.”
Fiquei imaginando Marx e Engels apresentando um relatório de boa conduta (circa 2018) para serem avalados no século XXI (falhariam e feio). Queria abrir a boca, naquela ocasião, para apontar que Simone de Beauvoir, antes de ser uma vítima, tem no próprio currículo acusações de abuso de alunas, e que as pessoas são mais complicadas e “feias” do que supomos. Que filósofos e filósofas, ativistas, escritores e escritoras, artistas e músicos produzem coisas belíssimas, brilhantes e são, eles mesmos, também monstros. Que na faculdade passei lendo gente que tinha sido nazista, gente racista e machista, gente que tinha deixado, traído ou então até mesmo matado a mulher, gente que tinha tido escravizados ou ganhado dinheiro explorando trabalhadores. Gente que, ainda assim, era incontornável para que eu entendesse sua época ou conceitos do passado, isto é, meus objetos de estudo enquanto historiadora. Li muita gente, em suma, horrível, péssimas pessoas, o que hoje me faz perguntar se a única forma de alguém entender o que fazemos é explicar que as humanidades são uma espécie de série true crime, no qual estamos cotidianamente em frente a infratores, tentando entender onde falhamos.
No entanto, fiquei quieta, porque sabia que não ia ser compreendida. Essa pessoa das perguntas, afinal de contas, foi a primeira que ouvi chamar o que eu escrevia na internet de “conteúdo” e se referia a ler ou ver um filme como “consumir”, mais ou menos como as versões “salada pronta” de Mandela e MLK. Eu, do alto da minha arrogância de filha de cientistas, ficava horrorizada. Eu particularmente não consumia as coisas que amava e a toda essa gente horrorosa que convivia, apertada, na minhas prateleiras: eu lia, relia, riscava, ou então assistia um filme ou uma peça de teatro, possivelmente produzidos por pessoas igualmente reprováveis. Escutava música e me deixava afetar. Isso que chamamos cultura e ciência eram coisas adquiridas em troca de dinheiro — mesmo que fossem centavos em fotocópias — mas pressupunha outro engajamento que aquele mediado por uma dimensão material.
Consumir era outra coisa. Estudar, amar, sentir-se afetado por algo não era, para mim, consumir. Educação, como dizia o bordão que espalhavámos em defesa da universidade pública, não é mercadoria.
Eu não sabia, mas ao conversar com essa pessoa há coisa de onze anos, estava conversando com o futuro, já que, aparentemente, o grande marketplace of ideas de John Stuart Mill se tornou apenas isso: um marketplace onde ninguém quer trabalhar, apenas ter dinheiro, porém de uma forma que seja honesta e se possível sustentável (usando canudos de metal para não prejudicar as tartarugas). Um marketplace sem ideias, apenas repetindo frases soltas de livros muito mais complexos do que um mero bordão (“o que você chama de amor é trabalho não remunerado”, “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”) porque ninguém se detém muito para pensar ou prestar atenção no que o outro está dizendo ou então já de cara descartando o que essa pessoa tem a dizer.
(“Isso é tua opinião ou é algo que tu pesquisou?”, me perguntou uma pessoa do espectro político oposto ao meu, semanas atrás, dando a entender que se fosse minha opinião, ela era inteiramente descartável).
Mais especificamente, tudo isso que estou descrevendo é o feed do Instagram intercalando um escritor vendendo alguma oficina com um educador físico te vendendo um treino para mulheres na perimenopausa, com uma nutricionista te vendendo a dieta que vai dar um jeito, agora sim, na tua vida, e de novo um historiador te vendendo um curso sobre o assunto em pauta. Consuma, consuma, consuma. Para não ficar tão feio, os cursos muitas vezes dizem que o valor pago por algo é um “investimento”, para ficar mais afim ao outro imperativo do momento.
Consuma e invista, porém, conscientemente, de acordo com as suas crenças particulares. Há, afinal de contas, um mundo invertido onde estar contra o racismo, o machismo e problematizar relações de trabalho é bobagem e não um mero sinal de virtude.
Fiz uma piada nas redes durante a Copa sobre a Bélgica ser o Uruguai do Norte. Fui interpelada por uma moça que me disse que estava errado comparar os dois países, pois a Bélgica tinha um “histórico de genocídio”. Tive que fazer o lamentável: explicar a piada, admitidamente de nerd e obscura, sobre o Uruguai e a Bélgica terem tido suas criações enquanto estados independentes mediadas pelo mesmo diplomata britânico, Lord Ponsonby, nas primeiras décadas do século XIX. Agreguei, ainda, que o Uruguai, esse mesmo lugar aparentemente “fofo”, aninhado ao lado do Rio Grande do Sul, tinha um genocídio para chamar de seu, assim como quase todos os países do mundo. Meu esclarecimento não adiantou nada, pois há gente que separa as elites colonizadoras dos Estados nacionais que elas mesmas criaram, como se isso fizesse algum sentido. Para gostar de um país — como o Uruguai — é necessário que ele represente todas as nossas aspirações. E sabemos bem o que significa quando os Estados nacionais representam as aspirações de alguém.
Ideias, países, autores, pessoas, todas passaram hoje a ser consumidas tão somente na medida em que agregam aquilo que Pierre Bourdieu chamou de capital, seja social ou cultural. Países, pessoas, jogadores de futebol, escritoras e escritores estão todos expostos em nossos feeds de Instagram como se fossem os volumes de livros antirracistas nas estantes de jornalistas da Globo durante a pandemia (o salvo-conduto de toda pessoa branca que se quis “do bem” naquele momento). Não à toa todas as exposições decoloniais, antirracistas, descontruidonas que vi em São Paulo no final do ano passado foram bancadas por quem realmente sabe investir, essa elite da elite empresarial brasileira, a mesmíssima que tem rédeas soltas dentro do Ministério de Educação, com as consequências que eu vivo diariamente em sala de aula.
Quando saí do MASP naquela ocasião senti algo estranhíssimo, inominável, ao invés de estar mais “iluminada” a respeito da realidade de meu próprio país.
Meu ponto é que esse consumo incessante de vítimas — que começou com a universalização da experiência do Holocausto nos anos 1990 e se expandiu para outras tragédia do século passado — tem gerado um comodismo parecido com aquele promovido pelos livros de história “politicamente incorretos” daquele autor lá. Porque sentar e realmente pensar sobre nosso lugar no mundo geralmente incomoda, de uma forma que não pode ser aplacada pelo compartilhamento de um post, por vestir uma camiseta, por meramente “consumir” o livro ou a experiência de alguém que passou por algo horrível perpetrado por “outros” . Esse comodismo do consumo de todas as pautas só gera dinheiro para as Big Techs e a paulatina dessensibilização de todos nós diante de tragédias, de Gaza a desastres climáticos, porque se estamos postando, dificilmente estamos sentindo outra coisa que não bem com nós mesmos. Também é uma forma de desumanizar aquele que “não nos representa”, seja lá o que isso quer dizer.
Essa paralisia consumista é a única explicação que encontro para que, de repente, a Igreja Católica seja o farol do pensamento progressista contemporâneo. É algo que me causa profunda estranheza, mesmo sabendo que estamos vivendo tempos em que toda pedagogia política do século XX se desvanece no ar: um jogador de futebol gritando, ao celebrar o campeonato mundial do país onde se pintou o Guernica, “viva o rei”.


