Cheia
Um desejo de final de ano talvez um tanto inusual.
Quando a Globo transmitiu, lá pelo início desse século, a minissérie A casa das sete mulheres, baseada no romance homônimo de Letícia Wierzchowski, brincávamos eu e minhas colegas de graduação em História, que os produtores tinham descoberto um caminho entre Pelotas e Porto Alegre que passava por Cambará do Sul. Pareceu que meter a serra e nosso limite com Santa Catarina no que era, na história, para ser o limite com o Uruguai era algo adequado, era mostrar o Rio Grande do Sul.
Os cânions são como se fossem nossos Andes, suponho, e por isso decidi que esse era um bom destino para levar um estrangeiro.
Eu queria também, no final deste ano, me enfiar no meio do nada, ficar no vazio, e encarar uma promessa que tinha me feito dez anos antes: percorrer a trilha do Rio do Boi, que corta o cânion do Itaimbezinho. Trata-se de um entre muitos cânions da região dos Aparados da Serra, o mais conhecido entre nós, as crianças de apartamento do sul.
Há muitas formas de se ir ver esses cânions, formados pelos inúmeros derrames de lava que ajudaram a descolar o que hoje chamamos de África da América do Sul. Quando fui em 2014, fiquei numa fazenda convertida em uma espécie de resort glamping no meio do nada. O que me disseram agora, enquanto estive sacolejando numa 4x4 para me jogar embaixo de cascatas numa tarde nublada, é que antes da pandemia o mais comum no centro de Cambará em si eram hospedagens em casas de família convertidas em pousadas. Com a pandemia, depois de se frear completamente o movimento de viajantes, houve uma demanda por cabanas em que os hóspedes pudessem estar isolados e, também, por passeios ao ar livre. Ao contrário da maior parte dos destinos turísticos, Cambará cresceu.
“O pessoal mudou também", disse Éder, guia de uma das muitas agências que oferecem passeios de quadriciclos, caminhonete, balão e à cavalo pelos arredores da cidade, “ao invés de ser gente da região, começou a vir um pessoal com maior poder aquisitivo de outras partes do país.”
Cambará tinha, segundo ele, uma unidade de restaurante antes disso. Com tudo isso, o número de lugares para jantar aumentou, abriram uns pubs de gente que faz sua própria cerveja.
Todo esse movimento do passado não se reflete agora, principalmente após a concessão, pelo ministério do meio ambiente de Ricardo Salles, dos parques nacionais à iniciativa privada. Renato, que nos alugou a cabana onde ficamos, beirando o final da malha urbana, nos avisou que se quiséssemos evitar a viração (a neblina que sobe de tarde com a umidade e acaba com a visibilidade da paisagem), o melhor era sair de casa e chegar nos parques antes das 8:30 da manhã. Dez anos antes, quando fui com uma amiga, o Itaimbezinho mesmo cedo estava estalando de gente, a ponto de ser meio incômodo. Dessa vez, a impressão que dava é que eu e meu namorado éramos as únicas pessoas lá, em uma data de início de férias de final do ano, num dia ensolarado.
Até entrarmos na noite anterior em um dos restaurantes indicado por nosso anfitrião, também tínhamos a sensação de sermos os únicos forasteiros na cidade, que encontramos parada numa tarde de quarta-feira em que todos pareciam estar na apresentação de final de ano de um colégio estadual.
Só dos empreendedores que são também forasteiros é que escutamos histórias de casais de ingleses, de franceses, de mães e filhas argentinas que também buscam se embrenhar nessas falésias tão atípicas.
Depois de voltarmos e depois do Natal, há uns dias, passei pela experiência de estar em silêncio no Buquebus, atravessando o Rio da Prata pelo que parece ter sido a enésima vez este ano, olhando as publicidades numa televisão de bordo. A maioria é de empreendimentos imobiliários de luxo em Punta del Este, todos mais ou menos idênticos aos que vemos em Balneário Camboriú, uma outra proto-Dubai. Esses condomínios são não-lugares, tanto quanto os shoppings, os aeroportos e alguns estádios de futebol. E por isso mesmo, fiquei pensando nos passeios que fizemos em Cambará, todos bastante caros, em que os guias, ao perguntar de onde viemos e se depararem com a informação de que meu companheiro é argentino, não fizeram nada com isso. Repassaram as mesmas informações em português rápido a respeito do que vimos, entre cascatas, jararacas e aranhas. Na trilha do Rio do Boi, o guia parecia mais preocupado em fotografar nosso grupo fazendo as dezoito travessias pelo rio de mãos dadas — idênticas às que estão nos sites de todas as agências — do que ajudar aqueles de nós que nem sempre podiam com as águas carregadas da chuva do dia anterior.
Queria satisfazer o desejo de estar embaixo dos paredões que vemos normalmente de cima e a criança bióloga que fui no passado e não ter uma determinada experiência, que vi num catálogo online. Minha pele ainda está marcada pelas picadas dos borrachudos que se grudaram a mim na saída da trilha e do torrão inevitável de quem chegou muito perto do céu. Ainda assim, fiquei com uma sensação agridoce, de que como quase tudo, até mesmo o mato está virando plástico, nesse caso uma experiência muito instagramável. Nosso guia já sabia que poses pedir para nossos companheiros de trilha fazerem em cada cascata, cada pedra, como se tudo fosse um ensaio planejado.
De espontâneo, só meus escorregões, os roxos nas minhas pernas, o cansaço depois da trilha (“estás clinicamente muerta”, foi o comentário, aos risos, depois que voltamos molhados e exaustos).
Com isso tudo em mente, desejo a todos um 2025 o menos posado e artificial possível, menos instagramável, menos “vive, sueña, ríe, ama”. E de alguém que viu sua cidade inundar — encher — um ano menos cheio.
Obrigada por lerem e pela companhia ainda que silenciosa nesta verborragia que é a internet.



Para mim é um desejo nada inusual, apenas mais uma das facetas da busca à verdade, que cada vez mais se esconde em meio de tantas verdades. Feliz 2025 com mais verdade, natureza e calma!
Feliz 2025, Renata!!