Algo de calor
Sobre umas semanas frias demais.
(Tirinha da Laerte, de hoje, na Folha - porque sim.)
Nunca fui boa em esperar. Creio que os termos “distraída”, “impaciente” e “conversadeira” constavam nos meus boletins escolares, porque eu sempre tinha pressa ou estava irrequieta. Aprendi essa última palavra com minha mãe, junto com “indócil”, ambas dirigidas a mim. Queria terminar tudo correndo ou começar as coisas antes de que realmente tivesse terminado o que estava por fazer. Minha instrutora de pilates está sempre me exortando também, a ir mais devagar, “tu quer sempre te livrar dos exercícios”.
Isso se chama ansiedade.
Gostava, portanto, mais do inverno do que do bafo pregnante de esperas do verão, no qual nada era muito garantido, longas tardes para não fazer nada. No inverno, além de bergamotas, o ano estava ao menos correndo e não quase terminando ou recém iniciando. Eu estava, de certa forma, indo rumo a algo. No verão, me restava esperar pelas notas, pelas festas, pelas férias. A despeito de não gostar do colégio, gostava do frio e de seu convite à solidão mais do que o ruído insuportável dos meses sem aula em que sempre se pressupunha companhia ou estar fazendo algo quando eu não necessariamente tinha com quem fazer as coisas.
Foi nos verões que aprendi a conviver com minha própria companhia e preferi-la até em demasia à dos demais.
Cheguei na casa da minha tia, no último sábado, junto com um princípio de primavera antes do tempo. Portanto, vestia mangas curtas embaixo de um casaco de moletom. Todos ainda trajavam alguma roupa de inverno e eu, com os braços desimpedidos, me senti uma colona grossa. A quem me pergunta, digo que o sul do estado mudou minha relação com o frio. Que, desde que há quase dez anos, me cravei numa calçada e senti frio parada no sol, jamais fui a mesma. Entendi aqueles amigos do interior, seja de que ponto cardeal dessa coisa úmida que chamamos estado, que dizem que o porto-alegrense jamais sentiu frio. Em algo precisam ter razão.
Nos últimos dias o Rio Grande do Sul foi atravessado por uma massa de ar polar como há tempos não se via e que, antes de chegar até aqui, matou algumas ovelhas e patos congelados na Patagônia. Dormi de estufa ligada e de calça de moletom. Fui dar aula com o que chamo de meu casaco de “matar urso”, com calças e blusas duplas, meias de trilha e de lã de lhama. Parece exagerado, mas o prédio onde dou aula fica numa posição solar ingrata, isolado no pampa, no topo de um cerro, e ainda está cravejado de infiltrações a despeito do telhado ter sido enfim consertado. Usei, com alunos, as palavras “tumba” e “cripta” para descrevê-lo, sem querer associá-lo à morte.
Apenas ao que imaginamos que seja a temperatura desses lugares onde não importa nossa frieza.
Eu, ao contrário, quando dou aula tento ser algo cálida com os que me escutam e, portanto, me senti humilhada pela ponta do meu nariz que, independente do ar-condicionado, do chá e do café quente, continuou gelada, como que para me provar algo. Talvez me mostrar tudo aquilo que resta por se refazer depois desse semestre que, para mim, em muitos aspectos não foi. Ao voltar e me enfiar embaixo do chuveiro depois das aulas e depois de correr Uruguai adentro de manhã, senti por diversas vezes aquela dor estranha da pele ainda gelada entrando em contato com a água quente.
É parecido com o que senti, depois de todos esses dias, ao ver as paredes ainda sujas com a marca da inundação nos arredores da rodoviária de Porto Alegre. Muitas coisas não puderam — e não podem — esperar até que se refaça a cidade, sobretudo aquilo que se quebrou por dentro. Então estamos todos meio gelados, entrando numa panela de água fervente. Os caixas automáticos da rodoviária ainda estavam sujos quando me aproximei, sem ilusões, há duas segundas-feiras. É um lugar onde eu repousava meus dedos frios toda a semana para sacar só o estritamente necessário — para o ônibus entre Pelotas e Jaguarão, para o táxi dormindo no retorno — e agora está ali, apagado como um morto.
Cada vez que vejo alguma bandeira do Rio Grande do Sul pendurada em algum lugar é como se eu tivesse o lembrete de algo horrível que aconteceu, como se ao revirar uma gaveta depois de terminar um namoro, eu encontrasse um objeto do dito cujo. Dou uma fechada de olhos como que para me situar de que, sim, aquilo tudo aconteceu — os baldes d’água, os supermercados vazios, o cavalo no telhado, os amigos e conhecidos desesperados, o voluntariado, as pessoas ainda sem casa — apesar de algumas vidas terem voltado ao normal.
Algumas poucas.
Esperei pacientemente e o frio passou. Semana que vem, dizem, o tempo segue firme. E eu vou estar esperando, dessa vez, algo de calor.



Como sempre, um primor de texto. Bem, se estamos sentindo frio no Rio, imagino como está em Porto Alegre e adjacências. Também estou esperando pelo calorzinho prometido pela meteorologia.